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Resenha: Contos Noturnos - Dylan Ricardo (Cultura em Letras)

em segunda-feira, 24 de junho de 2019


Contos Noturnos, de Dylan Ricardo, foi publicado pela Cultura em Letras Edições em 2019.  Com a mesma atmosfera sombria e assustadora que marca a escrita do autor, cada história nos apresenta cenários estranhos e perturbadores.  A cada página sentimos o coração pulsar diante da dinâmica fria e cruel com a qual foi construído cada enredo.  Conhecemos personagens que nos guiam por caminhos obscuros e perigosos, surpreendendo o leitor a cada desfecho.

Dylan Ricardo já é conhecido por seus poemas com inspiração gótica e ultrarromântica, e agora se aventura em seu primeiro livro inteiramente de contos.   Mais uma vez, o autor realiza um trabalho repleto de detalhes e nuances, onde a técnica se mistura com o talento para nos apresentar realidades assustadoras.

Imaginar-se dentro de cada um dos contos é absurdamente incômodo.   Algumas histórias trazem elementos surreais que vão além da compreensão humana, como objetos com energias estranhas ou forças poderosas que influenciam diretamente os personagens.   A morte, como não poderia deixar de ser, também mostra sua aura de mistério. O que haveria depois da linha sutil que separa a nossa realidade do desconhecido?

Em outros momentos o autor nos apresenta psicopatas e assassinos.  Situações cruéis, mas totalmente possíveis, acabam surpreendendo o leitor desavisado.  Mortes, assassinatos e revelações vão surgindo e revelando o lado obscuro de cada trama.   Os contos são bem elaborados e os personagens bem construídos, mesmo diante do tamanho reduzido da narrativa.  O projeto gráfico é outro destaque.  As páginas com os títulos de cada história receberam a tonalidade cinza e uma lua estampada ao fundo, representando bem o clima da obra.  No início e no fim do livro temos páginas pretas que deram um charme especial à edição.

Com 308 páginas e 10 contos, o novo livro de Dylan Ricardo é indicado para os leitores que apreciam bons contos de horror.  As páginas são amareladas e a fonte confortável.  Os textos variam de tamanho, mas todos cumprem o que prometem ao trazer ao leitor bons momentos de leitura dentro do gênero.   Confiram um pouco da atmosfera de cada um dos contos e se preparem para entrar no universo misterioso e assustador de Dylan Ricardo.

O último despertar

Imagine abrir os olhos e sentir-se na mais completa escuridão.  Um espaço limitado que mal permita pequenos movimentos, como se estivesse trancado em uma caixa.  O silêncio soberano era profundo e assustador.  O ar parece faltar, prejudicando a respiração.  Talvez fosse esse seu último despertar.

Também sentiu com a ponta dos dedos os botões da camisa e subindo pelo peito chegou ao nó da gravata.  Pôde tocar a sua barba mal feita.  Alisar a sua face suada e perceber com as palmas que ainda estava respirando -- o que não seria por muito tempo.  Era uma situação tão surpreendente quanto desesperadora.  (p.17)

O espelho

Tia Carlota havia falecido inesperadamente aos 102 anos.  Em seu testamento, os mais privilegiados foram as instituições que ficaram com os inúmeros gatos que ela cuidava, pouco sobrando para o resto da família.  Porém Leôncio, que fazia visitas frequentes à tia, acabou herdando um antigo e estranho espelho, que aparentemente poderia ser valioso.  Mais tarde, ele acabaria descobrindo que esse antiquário era bem mais do que uma simples velharia.

Lembre-se, todos são reflexos de suas próprias impossibilidades de mudança.  Cada olhar só percebe o que quer, pois tem uma empobrecida percepção do outro.  Ninguém surpreende mais ninguém, pois todos já estão mortos por dentro.  E morrer por dentro é ter entregado a própria identidade a uma sociedade que exige que você seja apenas uma sombra do que verdadeiramente poderia ser. (p.42)

A caixa

Casimiro era um corretor de imóveis metódico e cumpridor de suas obrigações.  Naquele dia, algo o levou até o simples parque de diversões que havia sido instalado em um terreno da cidade.  Solitário e tímido, sentia-se seguro com seu jeito reservado e, até mesmo, covarde.  Foi em uma tenda escura e sem nenhum grande atrativo que encontrou um homem chamado Solfierinni que lhe apresentou uma caixa mágica que mudaria para sempre sua vida.

Era um estojo quadrado, aparentemente de madeira polida e brilhosa, se havia algum desenho ou inscrição a luz do ambiente não permitia a identificação.  Lembrava-lhe uma caixa de música, daquelas que dançam frágeis bailarinas. (p.53)

Conversa de bar     

Adolfo sempre foi um homem de cautela.  Naquela noite, ao sair do prédio onde trabalhava, deparou-se com uma enorme tempestade, com  raios e trovões assustadores.  Se não fosse sua mania de enganar o acaso, não teria o guarda-chuva guardado na bolsa, que possibilitou lidar com o imprevisto.  Entrou em um aconchegante bar para esperar o dilúvio passar e o bate-papo iniciado com o garçom seria só o início de assustadoras histórias e uma estranha descoberta.

Burburinhos afastados lhe chamavam a atenção e olhando para trás, percebeu distante, em frente ao prédio do qual acabara de sair há alguns minutos, uma estranha movimentação.  A curiosidade o fez parar por alguns segundos e distinguir sons abafados, aparentemente de uma miscelânea de conversas incompreensíveis que emergiam da agitada aglomeração que se formava.  Alguma coisa incomum havia acontecido e ao que tudo indicava, séria, "Que estranho!  O que será que aconteceu às porta da empresa? (p.103)

O gato de mármore

Álvares já havia experimentado a fama e o reconhecimento no meio artístico, mas já há alguns meses não saia de suas mãos uma escultura sequer.  A inspiração parecia tê-lo abandonado.   Não havia exposições programadas, novos contratos, nem mesmo uma simples entrevista para que não caísse no esquecimento.  Em uma madrugada, buscando espantar a tortura e respirar novos ares, o escultor saiu para caminhar.  Um encontro inesperado poderia ser a solução de seus problemas.  Um acordo prometia dar-lhe o sucesso que nunca havia tido.

Era um gato.  O gato mais negro que ele havia visto na vida.  Silencioso, sereno, imponente como um poderoso monarca sobre o trono.  De grandes e profundos olhos meditativos, carregava na face, agora perfeitamente percebida por Álvares, um conteúdo ancestral indescritível.  Sua compleição era de robustez incomum.  Parecia maior que um gato normal e as patas mostravam-se ameaçadoras.  O soturno felino, sentado sobre as patas traseiras, olhava fixamente para ele.  Olho no olho, em absoluto silêncio e nenhum movimento, como se fosse uma de suas esculturas. (p.189/190)

O homem da adaga

Uma casa abandonada escondia um prisioneiro desconhecido.  O lugar seria palco de um sangrento encontro, e muitos segredos revelados.  O passado, que se apresentava, mostrava seus heróis ou vilões.  Uma adaga, com aspecto medieval, rápida e mortal, seria o fio condutor desse desfecho.

No quarto do primeiro andar de uma casa abandonada, a chama de um candeeiro posto sobre uma velha mesa bruxuleava, pincelando com sombras bailarinas as paredes de papel descascado repletas de lodo e teias.  Naquela sala, além daquele móvel havia uma cadeira, na qual um homem estava fortemente amarrado. (p. 247)

Vermelho

Momentos antes de sua entrada no picadeiro, um palhaço percebe que falta a tinta vermelha que finalizaria sua caracterização para o espetáculo.  Entre o desespero e a ânsia de fazer um show  maravilhoso, ele busca uma saída para tornar sua apresentação inesquecível.

Um grande número de crianças perambulava pelo local, todas embasbacadas com as luzes, com a música e com os personagens ricamente vestidos que por ali transitavam para o divertimento geral.  Do lado de fora daquela tenda, a alegria espalhava-se ruidosa como um esfuziante vírus iluminado, mas em seu interior, o desespero já começava a criar uma atmosfera de insanidade. (p. 260)

Azul

Aluísio sempre se sentira privilegiado por seus belos olhos azuis.  Era mesmo uma dádiva e seu mundo passou a girar em torno dessa cor que se fazia especial.   Aos poucos, tomou conta de tudo que o cercava, dominando por inteiro sua vida.

Aluísio já praticou esportes, era empolgado por artes marciais, tinha preferência pelo judô, mas abandonou quando conquistou a faixa azul, não queria trocá-la, passando para a amarela.  Almejava ser faixa azul para sempre. (p. 267)

Edgar

Ainda filhote, um pequeno cãozinho foi encontrado ao lado de uma cova recém escavada em um cemitério, e acabou ganhando o nome do futuro morador daquela cova, Edgar.  Era um cão pastor alemão e logo virou o mascote dos funcionários, que lhe davam água e comida.   Fatos estranhos começaram a acontecer depois de sua chegada.  O que Edgar poderia representar para aquelas pessoas?

Edgar era destemido, no decorrer das madrugadas passeava pela escuridão daquele sombrio terreno e continuamente dormia sobre as lápides.  Os vigias da propriedade, conversando entre si, relatavam bizarras atitudes do animal, narrando histórias incomuns onde o cão, grunhindo levemente, parecia estabelecer diálogo com seres invisíveis.  Muitos funcionários benziam-se quando ele passava, ostentando um porte majestoso de pelo azulado à força de tão negro.  (p.272)

O monstro embaixo da cama

Uma série de ataques, seguidos por mortes e desaparecimentos, contra mulheres faz a polícia acreditar que estão diante de um perigoso serial killer.  A notícia aterrorizou as pessoas que apelidaram o perigoso assassino de Cabeleireiro Noturno.  

Já está tarde.  É depois da meia noite que a escuridão torna-se lar para aqueles que guardam trevas à alma.  É a hora em que desperta o monstro de cada um.  Vejo monstros em cada sombra, você não vê? (p. 301)


Boa leitura!

308 páginas
Dimensão:  14x21cm
1ª Edição (2019)
ISBN:978-85-68209-19-6


Confira outras resenhas do autor:



https://www.skoob.com.br/livro/807913ED812162

Você poderá adquirir este livro diretamente no site do autor.
 Pesadelos Poéticos

https://pesadelospoeticos.wixsite.com/dylanricardo


Você também encontra o livro na

http://www.culturaemletrasedicoes.com.br

 https://www.instagram.com/culturaemletrasedicoes/https://www.facebook.com/culturaemletras https://twitter.com/CulturaemLetras

 Sobre o Autor

Dylan Ricardo - Escritor e poeta, é autor das obras Mil Poemas e um Suicídio (este com cem sonetos e um conto), Contos noturnos (com dez contos de horror) , Nas Brumas do Desalento, No Zênite da Insanidade, Asas de Pedra, Do Inferno e Estado Terminal (já lançados) todos com poemas de inspiração gótica e ultrarromântica nos quais descreve liricamente trajetórias existenciais abarrotadas de desânimo, decepções e sonhos destruídos. Trazendo reflexões ao leitor sobre a sua própria existência, seus desejos e atos praticados. Muitos desses poemas tornaram-se crônicas do cotidiano de uma personalidade insatisfeita, realista e questionadora, por se referirem a assuntos voltados ao relacionamento humano, às lembranças e à efemeridade da vida. No Porão da Decadência, seu novo livro com poemas, ainda nas mãos da editora.


Contatos do Autor

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https://www.skoob.com.br/autor/20713-dylan-ricardo

* O livro foi enviado gentilmente pela Cultura em Letras Edições.

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