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Resenha: A menina que engoliu o sapo - Dilma Bittencourt (TopBooks)

em sexta-feira, 9 de outubro de 2020

 Profundo não é aquilo em que mergulhamos, é o susto com as nossas descobertas.  

 


A menina que engoliu o sapo, de Dilma Bittencourt, foi publicado em 2016 pela TopBooks.  Às vezes, a realidade se confronta com o mundo mágico de uma criança.  Aos olhos de uma menina, ao longo do tempo, a partida do pai se transforma em dor através da ausência.


A bela capa dura, as lindas ilustrações, o texto esbanjando poesia, todo o cuidado com a edição, acabam ocultando em um primeiro momento a força e a intensidade desse enredo.  A menina que engoliu um sapo necessita que o leitor mergulhe em suas páginas e sinta o lamento da Menina-princesa, caso contrário, a leitura fluirá em plena superfície das palavras, sem o impacto das nuances das complexidades das relações humanas.

 


Será o tempo uma ilusão?

 

A classificação indica um livro infantojuvenil, mas na minha opinião o livro é indicado para qualquer idade, mas não para qualquer pessoa.   Seus desenhos coloridos e o aparente mundo mágico escondem relações complexas e doloridas.  Recheado de metáforas e simbolismos, a autora cria uma atmosfera envolta em fantasia para explorar, através dos olhos de uma menina, os conflitos e desentendimentos dos pais, além de vários outros assuntos que permeiam a vivência humana.

  

Em seu universo mágico, Priscila, a Menina-princesa, vivia em um castelo cheio de alegria e encantos.  Os pais eram realezas soberanas, e no reino a felicidade parecia uma dádiva. Mas um dia, pela fresta da porta, a menina presenciou uma discussão que mudaria tudo em sua vida.  Entre gestos e palavras entrecortadas, a mala foi feita e o pai se foi.  Ela jamais se esqueceu dos gestos e fisionomia dos dois, que mostravam o tom grave da situação.   Em seu castelo, as coisas não seriam mais iguais. 



Confiar é ter certeza do amor.

 

O livro fala de tempo, e de como ele nunca deixa de correr.   Nada é capaz detê-lo ou mudar sua velocidade.  A verdade é que, muitas vezes, sentimos o desejo de controlar o tempo, que pode parecer implacável ou sedutor.   Para a Menina-princesa, o tempo se mostra na ausência.  A partida do pai, representada pela falta do casaco que a aquecia e lhe dava conforto nos dias frios, faz nascer a dor da ausência que nada conseguia amenizar.


Na sutileza do tempo, o presente, passado e futuro se misturavam na cabeça de Priscila que, ao aprisionar os sentimentos e aceitar o destino que lhe era imposto, se transformou na Menina-princesa-sapo, cultivando a infelicidade da separação, as dúvidas sobre a ausência do pai e a convivência com a amargurada Rainha-mãe.   As noites vazias, os dias solitários, sem festa, sem brincadeiras tornaram-se constantes.  A indiferença sobre seus sentimentos era aterrorizante, e cada um pensava apenas em suas angústias, só enxergava seus próprios conflitos.

 


 (...) a menina não imaginava e nem sabia o que era solidão, apenas a sentia, diante do vazio das palavras, da ausência do consolo, diante de um silêncio barulhento.

 

Diante do desamparo e da incerteza sobre o futuro,  a menina se agarra às lembranças, navegando na triste saudade.   Como manipular o fio que transporta o tempo?    A mala aberta, os sussurros da mãe quase inaudíveis, sentimentos, perda, ilusão.  O ciúme da mãe, obsessão, os sonhos do pai, a desconfiança da Rainha.   Com o passar dos dias, meses, anos, a menina busca as respostas, surpreendendo-se com os acontecimentos, com as linhas e caminhos que vão se cruzando.


O livro fala de perdas, velhice, Alzheimer, homossexualismo, egoísmo, solidão, separação, religião, abandono, dor...  Acima de tudo o enredo mostra como o tempo é soberano sobre todas as coisas.  Nada na vida é definitivo e cabe a cada um desenhar o próprio caminho.  As ilustrações de Mirian Lerner que abrem cada um dos 14 capítulos são representativas e carregadas de significados, sem contar que complementam perfeitamente o texto.

 


Com 114 páginas, impresso em papel Couchê Fosco 115g, fonte e espaçamento confortáveis, o livro A menina que engoliu o sapo contém prefácio, preâmbulo, prólogo, epílogo e uma carta ao leitor.   A edição cuidadosa, as ilustrações, a importância dos temas inseridos, a linguagem poética contida no texto, e outras qualidades que eu poderia citar, não deixam dúvidas de que é uma leitura que indico.   Não há um foco específico sobre nenhum assunto na trama, somente a dor da ausência e o passar do tempo, que é soberano aos olhos da menina. 


Boa leitura!



A menina que engoliu o sapo
Autora: Dilma Bittencourt
TopBooks
114 Páginas
1ª Edição (2016)
ISBN : 978-85-7475-263-1

 


 

Onde Comprar

http://www.topbooks.com.br/sinopses1.asp?chave=405&topico=O+outro+lado+da+lua

E também em outras livrarias online.

 

 Sobre a Autora

 

Carioca,  auditora fiscal do Trabalho aposentada, formada em Direito pela PUC e em Administração pela Universidade Cândido Mendes, pós-graduada pela PUC (2005) no curso “A magia da palavra – Criatividade, literatura e psicanálise", Dilma Bittencourt é autora de Cuba – Impressões de um turista (1989), digitalizado em 2008 pela Universidade do Texas (EUA).  Coautora, com Lauri Prieto, da fábula futurista O visitante do planeta Cosmos (Topbooks, 2001), selecionada pela Secretaria Municipal das Culturas/RioArte como Projeto Especial – tema inexistente no Rio – em 2012 lançou, pela mesma editora, o instigante Conversando com Lygia – www.cartasresenhasbilhetes.etc, um encontro entre a autora “criança” e os personagens Lourenço e Raquel, dos livros Paisagem e A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, de cuja obra Dilma é admiradora desde a infância. Este livro foi selecionado em 2013 pela FNLIJ para exposição na 50ª Feira do Livro Infantil de Bolonha (Itália), na categoria Ficção para Jovens, e integra o acervo da Biblioteca Internacional da Juventude, em Munique (Alemanha).

 

 ** O livro foi um presente da Editora TopBooks.

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