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Resenha: A glória e seu cortejo de horrores - Fernanda Torres (Companhia das Letras)

em quinta-feira, 17 de novembro de 2022

 A fantasia do ator é matéria frágil.

 

 
A glória e seu cortejo de horrores, da autora e atriz Fernanda Torres, foi publicado em 2017 pela Companhia das Letras.  Depois de conquistar o horário nobre como protagonista de uma novela de sucesso, um ator experimenta uma avalanche de situações que o joga na sarjeta.  O retrato da vida de um artista que precisa digerir o lado efêmero de sua arte para que possa, talvez, renascer das cinzas e alcançar a plenitude.   Um verdadeiro passeio pela arte teatral e televisiva dos últimos anos no país.

Esse é o terceiro livro da autora, que vem se destacando no universo literário, recebendo elogios da crítica especializada e conquistando milhares de leitores.  Fim, seu primeiro romance, se tornou um grande sucesso de vendas, abrindo caminho para  seu segundo livro, Sete anos, obra que reuniu crônicas que foram publicadas em revistas e jornais.


O teatro é uma profissão perigosa.


 

A foto da capa é uma imagem do filme O bandido da luz vermelha, de Rogério Sganzerla, com  a atriz Helena Ignez e Paulo Villaça, simbolizando o momento de transformação cultural da arte brasileira nos anos sessenta.  A essência da arte, acrescida por novos valores e objetivos definiriam os caminhos que surgiriam no teatro, cinema e televisão.  O próprio público tinha um novo papel e sua relação com os atores, aos poucos, se tornava efêmera e perigosa. 


Nesse livro, acompanhamos a vida e as lembranças de Mário Cardoso, um ator de meia idade, que alcançou o estrelato como galã de telenovelas, em horário nobre, na emissora mais assistida do país.   Vivendo seus dias de fama, cercado de regalias e belas mulheres, o mundo televisivo mostrou-se generoso e cruel com o ator a cada novo papel.

 

Seu cortejo de horrores começa com a decisão de retornar aos palcos de teatro onde deu os primeiros passos na carreira, ainda na época da faculdade, até chegar ao sucesso para o grande público.   Com o prestígio alcançado na televisão, embarca na produção de Rei Lear, o clássico de Willian Shakespeare, onde também seria o protagonista, patrocinado por uma grande empresa e por um projeto cultural do governo.

 

 Em que instante me transformei num cínico?

 

 

Mas o que prometia encher as salas de teatro e conquistar muitos prêmios para atores e produção se transforma em um grande fracasso.  Uma sucessão de erros e desastres (muitos cômicos) o obriga a encerrar a temporada logo no início, lhe rendendo inúmeras dívidas e multas.  


Em meio a tudo isso, Mário Cardoso ainda tem que lidar com a doença da mãe, Maria Amélia, com uma grave degeneração cerebral, que progredia rapidamente, causando-lhe confusões mentais, enxergando no filho o próprio marido falecido há anos.  Todo esse emaranhado de problemas o força a uma reaproximação com a família, da qual a muito se mantivera afastado.   Diante do caos que se instaura, a delicada situação financeira se agrava e as oportunidades de trabalho se tornam cada vez mais improváveis.


Mesclando os momentos atuais e as lembranças de sua carreira, Mário relembra sua incursão pelo teatro político, seus grandes papeis e infames fracassos, seus amores que se confundiam com ficção, e toda a trajetória que o levou até aquele momento.   A obra não segue uma linha cronológica, pincelando várias situações da vida do ator desde os anos 1960.  O cenário apresenta o Rio de Janeiro como eixo central, mas mostra outros lugares importantes nas andanças de Mário Cardoso


Ouça em silêncio as palavras, antes de se livrar delas. 

 

 

Fernanda Torres tem uma escrita fluida e aparentemente simples.  Digo isso, pois na verdade seu texto carrega a mágica que consegue facilmente integrar o leitor dentro da trama.  É como se fôssemos íntimos e participássemos de cada acontecimento, visualizando facilmente cenários, personagens e situações.  Ao dar voz em primeira pessoa a um personagem masculino, a autora consegue veracidade sem se tornar caricata ou forçada.  O enredo tem nuances de humor, sarcasmo, ironia que passeiam pelos dramas vividos por Mário Cardoso.


Com 216 páginas, fontes pequenas, espaçamento confortável, A glória e seu cortejo de horrores é uma leitura que não decepciona os leitores que criaram expectativas após o primeiro livro lançado pela autora.   Com um estilo que vem se consolidando, Fernanda Torres nos diverte e emociona, sem exageros ou superficialidades.   Como não desejar outras e outras histórias como essa?  Tenha uma ótima leitura!



A glória e seu cortejo de horrores
Autora : Fernanda Torres
Editora : Companhia das Letras
Páginas : 216
Edição : 1ª (2017)
Dimensão : 14x21cm
ISBN: 9788535929935



Sobre a Autora

Fernanda Torres nasceu no Rio de Janeiro, em 1965.  É autora do romance Fim e das crônicas dos Sete Anos, ambos publicados pela Companhia das Letras.   Há quarenta anos mantém uma carreira de sucesso no teatro, no cinema e na televisão.  É colunista da Folha de São Paulo, da Veja Rio e colaboradora da revista Piauí.

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