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Resenha: Luz, Câmera, Repressão - Rodrigo Duhau (Kiron)

em terça-feira, 17 de março de 2020

Liberdade de expressão, liberdade de ideias, liberdade de opinião.

Luz, câmera, repressão, de Rodrigo Duhau, foi publicado em 2015 pela Editora Kiron.  Memórias de personagens que tiveram suas vidas influenciadas pela censura de filmes durante o regime militar no Brasil.

Depois do golpe militar de 1964, o Brasil viveu uma época muito rígida em relação às expressões artísticas, que perduraram até 1985.  Foram 21 anos de repressão, controle, vigilância, tortura e censura.  Tudo era minuciosamente analisado por uma equipe que decidia o futuro de filmes, composições, espetáculos teatrais, programas de televisão, obras literárias, etc.   Da tão temida sentença podia-se esperar de tudo, dependendo dos censores indicados para a avaliação.

O ato de oprimir, de interditar ou de calar pensamentos considerados "ofensivos" à continuidade de uma determinada situação não se estabeleceu a partir de 1964.  Essa censura sobre publicações ou outras obras artísticas é um "legado" de longa data, dos tempos coloniais.  Definitivamente, não foi uma invenção dos militares da década de 1960.   

O livro Luz, câmera, repressão tem foco principal nas obras cinematográficas e programas para a televisão.  Sendo assim,  a indicação para determinadas faixas etárias ou indicação de horários para a exibição eram as decisões mais comuns.  Porém, em muitos casos, a censura era ainda mais rígida, exigindo cortes que chegavam a desvirtuar a essência da obra.   Várias vezes chegava-se ao extremo de proibir a exibição de filmes nacionais e estrangeiros. 

A censura dizia defender a moral e os bons costumes, preservando a honra e a dignidade da família brasileira.  Muito além disso, os censores buscavam preservar o regime militar de críticas e ataques.  Qualquer insinuação que se opusesse às ideias do governo eram explicitamente vetadas.  Um grande exemplo disso ocorreu com o filme  O país de São Saruê.  Na época de seu lançamento, o Brasil estava em plena campanha para passar uma imagem do país em pleno desenvolvimento, porém o filme mostrava um lado que o país procurava esconder, de uma região localizada entre os estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará, que sofria com a fome e a seca.  Resultado:  a exibição do filme foi expressamente proibida.

"Precisamos lembrar que a TV não é teatro de revista e que o corpo da mulher não devia ser exibido assim com tanta liberdade pois até as próprias crianças ficam chocadas ao verem as duas senhoritas balançando licenciosamente seus exuberantes mamões"  (Trecho de uma carta enviada ao governo, se referindo a uma propaganda vinculada na TV. )

O livro foi todo estruturado através de pesquisas em jornais e revistas, e também em processos e pareceres, ofícios e muitos materiais que constam nas caixas do Arquivo Nacional em Brasília.  A fonte viva responsável pelos depoimentos tem grande importância para  o texto, principalmente representados nas figuras de Maria Nilsa e Fernando Almeida.  Tem também depoimentos de dois censores, contudo seus nomes não são relevados. 

A Eletro Filmes, de propriedade de Fernando Almeida, representava diversos filmes, fazendo a ligação entre os produtores  e os órgãos responsáveis pela censura.  Ele solicitava a analise dos filmes e acompanhava todo o trâmite, e ainda recorria da decisão caso fosse desfavorável. 

Maria Nilsa Soares da Silva Duhau, mãe do autor, foi funcionária da Eletro Filmes a partir de 1975 até 1979.   Durante esse período ela conheceu atores, diretores, produtores, representantes de distribuidoras de filmes, entre outras pessoas do meio.   Depois disso foi trabalhar na Rede Globo como Encarregada de Censura.  É através de seus depoimentos que conhecemos como funcionava todo esse processo da censura no Brasil com mais detalhes.  Era interessante como as opiniões próprias de Nilsa muitas vezes se confrontava com o que era liberado, mas ela sempre exerceu seu trabalho com eficácia e lutava pela liberação das obras.

 "Recebi um convite para assistir ao filme brasileiro A dama da lotação; fui com o espírito prevenido para ver algumas cenas pesadas, pois se tratando de filme nacional e de Sônia Braga, não poderia esperar outra coisa. (...)  Sr. ministro, qual não foi a minha surpresa, vendo não algumas cenas, mas sim, todo o filme pesado.  Estou com tanta revolta dentro do meu coração que não resisti à vontade de lhe escrever.  (...)  O filme é um caso de polícia.  Tem cenas que nem mesmo os mais vividos dos mortais podem suportar.  (...)  No meu caso, Sr. ministro, sinto nojo de ser mulher.  Estou com vergonha de me olhar no espelho. (...)  Não sou puritana, repito, mas sou humana e tenho um pouco de vergonha na cara".  (carta de uma mulher de 48 anos endereçada ao ministro, fazendo referência ao filme A dama da lotação)

Maria Nilsa utilizava muitas táticas para que a censura fosse mais maleável com os julgamentos dos filmes.  Muitos artifícios eram utilizados, como conhecer cada figura envolvida no processo de análise; saber portando aqueles que eram menos rígidos era uma importante ferramenta.  As boas relações com os funcionários e cultivar certas amizades eram atitudes de extrema importância em seu trabalho.  Portanto, buscar informações durante os cafés, ou às visitas ao salão de beleza, assim como outros locais, era primordial.  Era imprescindível criar uma boa rede de contatos.

O Vaticano acreditava que o cinema influenciava as massas, e por isso foi um grande apoiador dos órgãos repressores.  O cinema era uma forma de recreação popular e chegava a todas as classes da sociedade, alcançando ricos e pobres.  A Igreja acreditava que os filmes incentivavam vícios, crimes e delitos.

Esse período mais rígido com a censura acabou por estimular a criatividade dos artistas, assim acredita muitos

Muitos censores também entravam em divergência em suas análises, discordando sobre alguns pontos de vista.  Outro destaque do livro são as cartas recebidas pelos órgãos censores, encontradas no  Arquivo Nacional em Brasília.  Muitas elogiam o trabalho dos censores, mas muitas outras cobravam ainda mais rigidez no processo.  Algumas chegavam a mostrar a mulher como um ser incapaz de compreender muitos temas liberados para a televisão; outras chegavam até mesmo a pedir  a morte de personagens considerados uma má influência para a família.  

Entre os muitos filmes que esbarraram na censura do Brasil estão:  Morte e Vida Severina, de Zelito Viana; O país de São Saruê, de Vladimir Carvalho;  Dois perdidos numa noite suja, de Braz Chediak, Emiliano Queiroz e Nelson Xavier; Toda nudez será castigada, de Arnaldo Jabor;   Onda Nova, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins; O enterro da cafetina, de Alberto Pieralisi.  O livro reproduz fotos e arquivos da época.

Entretanto, é bom que se diga:  não se pode dizer que a censura acabou definitivamente.  Haverá, sempre, um controle, um olhar conservador preparado para criticar ou defender o cerceamento da livre manifestação de ideias.

Com 240 páginas, folhas brancas e letras confortáveis, Luz, Câmara, Repressão, de Rodrigo Duhau, mostra o retrato de uma época em que a censura se tornou dura e implacável.  Onde os próprios criadores tornaram seus próprios censores com medo de ter suas obras recortadas e desvirtuadas da ideia original.  Foi uma época, que apesar de tudo, foi de grande riqueza cultural, com grandes obras que permanecem em destaque ainda hoje.  O livro segue os padrões de arquivos científicos.  É uma boa indicação para quem ama o cinema e quer conhecer um pouco da história da arte nessa época de repressão.   Boa leitura!


Editora: Kiron
http://www.editorakiron.com.br/Autor: Rodrigo Duhau
Ano: 2015 (Reimpressão 2017)
Edição: 1
Páginas: 240
Acabamento: Brochura
Dimensões: 14 x 21 cm
ISBN: 978-85-8113-442-0



https://www.skoob.com.br/na-sombra-do-mal-845855ed851231.html


Onde Comprar


http://livrariakiron.com.br/index.php/na-sombra-do-mal.html



Sobre o Autor


Rodrigo Duhau é brasiliense, jornalista e historiador.  Servidor público desde 2005, atua como assessor de comunicação da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) há doze anos.  Já trabalhou em dois jornais da cidade.


* Livro gentilmente cedido pela Editora Kiron.

12 comentários:

  1. Meu querido amigo, eu amo vir aqui! você me dá cada dica de livros maravilhosos, sabe a minha lista está grande kkkk mas vou ler com certeza, como sempre adoro suas resenha e está está maravilhosa, parabéns, beijinhosssss

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  2. olá amigo,gostei muito do tema do livro,porque a história precisa ser contada e analisada,podemos aprender muito com os erros e acertos dessa época tão difícil. Obrigada por nos brindar com essa resenha fantástica.bjus

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  3. oi
    Eu adorei a sugestão :D a temática do livro é bem interessante,não conhecia o trabalho do Rodrigo..

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  4. Olá Evandro
    Esse livro deve ser muito bom porque ele conta um pouco a história da ditadura no Brasil e sua rigidez e como as pessoas tinham q segui regras eu acredito em uma coisa. Q esse país tinha q ter regras sim p não ter violência e as pessoas não viverem a Deus dará. Porq com essa democracia no Brasil e essa liberdade demais a mulher brasileira perdeu a elegância de ser mulher hj o homem brasileiro não valoriza a mulher por culpa dela mesma o tanto q a própria veio desvalorizar ela e o modo da vida q hj a maioria leva. Adorei a resenha. Ficou fantástica adoro suas resenhas ... Bjs e sucesso

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  5. Suas dicas sempre incríveis, eu amei esta dica vou colocar na minha lista de leitura.

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  6. Penso que esse livro deveria ser obrigatório nas escolas, e vou bem sincera, eu bem que gostaria de alguma censura nesse nosso país, porque algumas coisas estão passando do limite com essa coisa de liberdade de expressão, mas não sou eu que governo esse país então .... Gostei muito da indicação do livro, com certeza quero ler, ou quem sabe presentear alguém ....

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  7. Ola tudo bem.
    Eu nao conhecia mas a obra me dispertou a atencao em conferi-la.

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  8. Olá, Evandro!
    Esse livro é uma boa dica, principalmente, para os leitores mais jovens ficarem por dentro dos fatos relacionados à censura na época da ditadura. Com a censura mais branda alguns filmes brasileiros abusam dos palavrões. Não assisti nenhum dos filmes citados.
    Um abraço.

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  9. Olá Evandro, tudo bem?
    Eu não conhecia o livro e nem o autor, mas achei super interessante, muitas vezes não paramos para pensar em tudo que foi censura no período militar, e não só nele, mas em outros momentos da nossa história. Na verdade, falta mais conhecimento sobre a nossa própria história. Achei bem bacana, ele trazer alguns filmes censurados. Vou anotar, quero ver a lista que o livro indica. Abraços

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  10. Olá,

    Apesar de não ler muitas obras com essa pegada mais jornalística, todos que li foram ótimos livros e esse parece ser o caso desse exemplar. Gostei bastante de saber que traz um período que foi tão dolorido, mostrando como a censura ocorria e que muitos artistas tiveram que se suprimir para não serem condenados. É um momento delicado de nossa história, mas muito importante para termos conhecimento, principalmente das artes produzidas durante ele. Já quero muito ler!

    Beijos!

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  11. Evandro!
    Vivi essa época, era muita censura mesmo, inclusive música e livros também além dos filmes.
    Imagino que o autor tenha feito uma pesquisa bem feita e tenha colocado a impressão e os sentimentos que aquela época teve, ainda mais com sua mãe como relatora de relatos daépoca.
    cheirinhos
    Rudy

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  12. Não vivi essa época, mas familiares relatam o quanto a censura era absurda. Entretanto, curiosamente foi a época em que a música popular brasileira desabrochou. Ótima postagem!

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