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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Resenha: A praça do mercado - Jorge Sá Earp (7 Letras)


A Praça do Mercado, de Jorge Sá Earp, é um livro de contos publicado pela Editora 7 Letras em 2018.  As relações humanas são construídas sobre alicerces frágeis e delicados, e é nesse universo que o autor explora detalhes, aparentes ou sutis, para contar cada uma das doze histórias contidas no livro.

A escrita de Jorge Sá Earp se apresenta de forma dinâmica e criativa.  Os diálogos são primorosamente construídos, revelando, aos poucos, detalhes de cada personagem.  O texto é enriquecido por elementos que são inseridos em cada trama em particular.  Pequenos gestos, uma palavra solta, a particularidade de cada personalidade, nuances de comportamento, são somente alguns detalhes que auxiliam para tornar cada um dos contos marcante.   Se torna evidente o domínio do autor sobre o tamanho delimitado do conto.  Em poucas páginas ele consegue criar toda a atmosfera e nos colocar próximos de cada personagem.

A ambientação dos contos, construídos de forma intimista, percorrem cidades diversas: Haia (Holanda), Paris (França), Trieste (Itália) e principalmente vários bairros do Rio de Janeiro (Brasil).  É como se o leitor estivesse presente em cada uma das situações, ruas ou lugares, tamanha intimidade do autor dentro de cada cenário.

Os temas são variados e interessantes.  Em cada história percebemos o cuidado com os detalhes e construção dos personagens.  Os cenários são reais e bem descritos.  Cada trama carrega seu fascínio e prende o leitor, com finalizações bem elaboradas.

Em suas 128 páginas amareladas, fonte padrão e confortáveis, o autor apresenta ao leitor deliciosas histórias.  Com humor refinado e drama sutil, as tramas são leves e rápidas, mas conseguem se fazer marcantes por suas  características e construção apurada e elegante.  Sem dúvida alguma, A praça do mercado é um dos melhores livros de contos que já li nos últimos tempos. 

Confira um pouco sobre cada conto:

A marca do Zorro - Um novo romance, maduro e equilibrado, poderia apagar as marcas de uma relação ardente e abusiva?  Aquiles conheceu Leopoldo, um jovem advogado recém-formado, e resolveu deixar para trás Edilson, o frentista por quem estava apaixonado.

Foi em meio à conversa animada com o Paulinho Barreto que Aquiles divisou Leopoldo em conversa com mais duas ou três pessoas.  Achou-o bonito. Não estava vestido de maneira tão falsamente elegante como no teatro.

A praça do mercado - O conto que dá título ao livro.  Os vários ângulos da relação envolvendo um cliente e um garoto de programa em uma sauna gay no Rio de Janeiro.

Ontem cheguei mais tarde.  Mas não muito, lá pelas seis.  Tirei minha roupa, enrolei a toalha na cintura e fiquei de papo com um camaradinha meu ali naquele banco comprido ao lado do vestiário esperando.  É chato ficar esperando cliente.  Me sinto meio esquisito.

Brunch e bay windows - Um simples encontro em um restaurante aproxima dois casais, mas as afinidades acabariam se evidenciando, despertando o ciúme adormecido.

Abrimos nossos guarda-chuvas, o de Bart preto, clássico, o de Willem "quilt" como uma saia escocesa e o meu amarelo (Carlos não gostava de guarda-chuvas; baixava o gorro da sua jaqueta e enfiava as mãos nos bolsos) e seguimos para a casa deles atrás da rua Denneweg.

Companhia - Depois do fim de um relacionamento Odete passa a frequentar uma boate, buscando por fim à solidão.  Lá conhece Amilton, um barman, pelo qual se encanta.

Ele se afasta reflexivo, quase se encosta nas prateleiras forradas de garrafas e volta a sorrir.  Só aí então debaixo daquele foco de luz indireta é que Odete percebeu que Amilton, quando sorria, exibia uma covinha.  Será que ele tinha olhos verdes ou era a iluminação da boate que provocava esse efeito, essa ilusão de ótica?

Domingo, almoço - Visitar os avós aos domingos e se reunir à família não era bem o desejo de Luís.  Transitando entre os debates efusivos dos adultos e as conversas das primas, o garoto permanecia alheio a todo contexto.  Tudo parecia, até então, algo inocente aos olhos de um adolescente.
 
Juntou as mãos num gesto de prece e lançou um olhar suplicante.  Mas ele se manteve firme na sua decisão.  A reação dramática da mãe se dera também porque a irmã secundara a sua frase.  A frase pronunciada assim, de supetão, inesperada ruptura, sem que a mãe - que estava na cozinha lavando uns restos de louça - tivesse sequer lhes perguntado, tão certa devia estar da realização de um ritual antigo.
- Não quero ir.

Mise-en-scène - Danielle é casada com Eric, um grande diretor de teatro.  Agora ela precisa lidar com o encantamento de seu marido com Véronique, a estrela principal de seu novo elenco.

Percebo nos olhos de Eric, seu entusiasmo por Véronique.  Não ue eu seja ciumenta.  Não, não, longe de mim.  Mas noto que esta noite sua atenção está inteiramente virada para ela.

No domicílio - Enquanto Magaly amarga a rotina de uma casamento recheado de tédio, sua velha tia Dora redescobre os prazeres de uma vida feliz depois da viuvez.  Essa alegria repentina pode incomodar as pessoas que a cercam.

Nunca ousaria convidá-lo não tivesse Adriano vindo entregar-lhe pizza já várias vezes.  Na primeira vez fora educada, com uma secura inconveniente.  Nos domingo subsequentes fora adoçando seu comportamento em relação ao rapaz.

Notas Soltas - Uma inusitada situação, presenciada por Ernitacqua Tremiatlinka, uma famosa cantora lírica, foi só o começo de uma grande aventura.   Nas escadarias de um banco, ela viu um homem deixar escapar de sua mala muitas notas de dinheiro, e soltou a voz, cantando lindamente como sempre fazia em momentos de nervosismo.

A senhora rotunda teve um acesso: primeiro o susto, em seguida o espanto vizinho do pavor e logo a histeria - comum nela - de emitir rodopios de voz, como fazia no teatro quando executava o seu canto coloratura. 

O último cônsul em Trieste - Depois de cinco anos como cônsul em Trieste, Noel Ataliba está pronto para retornar ao Brasil, sua terra natal.  Antes disso, a visita da filha coloca em risco um grande amor que se mantém em segredo em sua vida.

Lá pelas seis da tarde viria o seu amor.  Religiosamente todos os sábados.  E com ele passava os domingos.  Assim ganhara companhia nesse fim de vida:  há três anos saíra do outono e ingressara no inverno.

O vizinho - As dificuldades financeiras depois da separação levam uma mulher e seus filhos a morar próximos a uma favela em Botafogo.  Uma amizade entre um de seus filhos e um garoto do morro, por mais improvável e perigosa que pareça aos seus olhos, acaba acontecendo.

Devo dizer que custei muito a me acostumar com aquela presença buliçosa ao nosso lado. No inicio saber da sua excessiva proximidade me incomodava tremendamente.  E esse mesmo sentimento partilhava com meus irmãos, embora desde nossa mudança não tivéssemos manifestado tal aborrecimento talvez por acordo tácito em respeito à nossa mãe.  

Os longos anos - Regina dedica-se inteiramente à mãe, já idosa e acamada.  Sua filha Mônica acha um exagero tamanha doação, enquanto o filho Roberto se mantém à distância.

Há anos Adelaide tivera uma isquemia.  Todos pensaram em derrame fatal, porém ao recuperar os sentidos constataram a perda de sua capacidade locomotora.  Não podia mais andar.  De natureza vaidosa e caprichosa, deslocar-se montada numa cadeira de rodas era humilhante.  Sentia-se diminuída, imprestável.  O humor, que nunca fora dos mais alegres, mudou, tornou-se mais melancólico.

Três Graças - Mário relembra detalhes da vida de três irmãs, filhas da amiga de infância da mãe, com as quais conviveu quando ainda era um menino.

Moravam numa casa espaçosa no fundo da rua, próxima ao meu edifício na Tijuca.  Eram filhas de uma amiga de infância de minha mãe, Selma, que eu aprendera a chamar de tia.  Era uma senhora gorda de riso largo, que exibia uma vistosa carreira de dentes.
    
 Boa leitura!



Autor:  Jorge Sá Earp
128 páginas
1ª Edição - 2018
Dimensão:  14x21cm
ISBN 978-85-421-0705-0



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Onde Comprar

https://www.7letras.com.br/a-praca-do-mercado.html


https://www.travessa.com.br/a-praca-do-mercado/artigo/9d102b4c-bdb9-43f1-a030-d000d7e89bdd


Sobre o Autor 
https://www.facebook.com/jorge.saearp


Jorge Sá Earp nasceu no Rio de Janeiro, em 1955. Cursou Letras na PUC-Rio. Como diplomata serviu na Polônia, Holanda, Gabão, Bélgica, Romênia, Equador e atualmente vive na Costa Rica. Publicou, entre outros, Ponto de Fuga (romance, 1996), vencedor do prêmio Nestlé de Literatura; Areias Pretas (contos, 2004), O Novelo (romance, 2008), As marés de Tuala (romace, 2010), O Jogo dos Gatos Pardos (romance, 2011), Bandido e mocinho (contos, 2012) e Quatro em Cartago (romance, 2016).





* Livro gentilmente cedido pela Oasys Cultural

35 comentários:

  1. Gosto muito de livros de contos, pois são histórias curtas que faz entender mais, achei bom que o autor colocou temas variados, e isso faz com que o leitor fique atento a história, gostei muito dos contos do Jorge Sá Earp, abraços.

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    1. Oi, Lucimar. O livro é ótimo. Tenho certeza que você irá gostar.

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  2. Também gosto muito de livros que apresentem contos, é um dos meus formatos preferidos de leitura. Podemos conhecer várias histórias e personagens diferentes em uma única obra e essa em questão nos faz viajar por diversas cidades do mundo, gostei muito da proposta.

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    1. Oi, Patrícia. O autor é incrível. Cada conto equivale a um livro inteiro de tão bem feito.

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Meu querido, parabéns pela resenha como sempre suas resenhas são maravilhosas, alem dos romances gosto muito de contos me faz viajar longe!obrigado por compartilhar, beijinhossssssssss

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  5. Achei o máximo o essa resenha, fiquei com vontade de conhecer melhor. Parabéns !

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    1. Procure conhecer. O livro vale muito a pena. Tenho certeza que você vai gostar.

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  6. Adorei sua resenha. Gosto de livros de contos, e achei super interessante as várias temáticas dos contos que tem no livro, eu com certeza adoraria ler o mesmo.

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    1. Os contos são incríveis. Muito bem escritos e prendem o leitor do início ao fim.

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  7. Adoro contos! Uma alternativa para manter o hábito da leitura em dias, quando a correria não nos permite mergulhar em histórias mais compridas. Não conhecia este livro, mas fiquei curiosa. Estou enganada ou a temática LGBT é uma presença forte nela? Se for, já eh algo bastante positivo uma vez que o debate sobre o assunto é sempre muito importante.
    Parabéns pela resenha!

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    1. Oi, Malu. Realmente é uma ótima opção quando nos falta tempo para a leitura. Os contos são rápidos e, ao mesmo, tempo com histórias completas e intensas. A temática LGBT é forte,aparecendo em alguns contos, inclusive no que dá título ao livro, mas não representa o livro como um todo. Outros variados assuntos são explorados na maioria das outras histórias.

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  8. Apesar de ser um fã assíduo dos romances, não nego que também faço parte daqueles que não dispensam um bom conto! E essa coletânea, tenho certeza, é capaz de nos oferecer histórias que nos tiram da realidade por alguns instantes e nos fazem viajar pelas paisagens que serviram de cenário. Muito bem pensado!

    Ótima sugestão!
    Abraços!

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    1. Os contos são ótimos Amilton. O autor, sem dúvida, sabe nos contar suas histórias.

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  9. Sua resenha me deixou bem empolgada pelo fato do leitor sentir que está presente em cada cenário. Sou fã de contos e certamente irei amar essa coletânea, obrigada pela indicação!
    Abraço!

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    1. Também tenho certeza que você irá adorar. Não deixe de conferir.

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  10. Oi,tudo bem ?

    Não conhecia a obra, então o post foi uma grata surpresa. Gosto bastante de contos e toda a proposta me chamou bastante a atenção. Sua resenha ressaltou bem os pontos positivos, nos deixando que a obra é uma ótima indicação de leitura.

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    1. É um ótimo livro para os adoradores do gênero. Também é uma ótima dica para quem quer se aventurar nos contos.

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  11. Adorei a dica, amo livros de contos, adoro ler depois de uma leitura pesada assim consigo evitar a ressaca e acabo descobrindo obras incríveis.

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  12. Olá Evandro, Sinceramente faz tempo que não pego um livro para ler, não que eu não goste mas, a correria tem me deixado tão cansada que como antes eu lia antes de dormir agora caio na cama e esqueço que existem livros. Essa sua resenha me abriu o apetite pela leitura, vou tentear ler esse livro. Abçs.

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    1. Oi, Toninha. Esse é um livro ideal para voltar com suas leituras. As histórias são rápidas e super interessantes.

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  13. oi amigo,não conhecia o autor mas me interesso por livros de contos cotidianos,muito bem feita sua resenha como sempre,nos atiça a leitura.Ótima dica,grata.

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    1. Contos que narram o cotidiano realmente têm seu charme. Obrigado pela visita.

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  14. Parabéns pela resenha,esse é um livro muito bom,eu ainda não conheço,mais achei a resenha do livro interessante e boa,parabéns pela postagem.

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  15. Mais um livro pra acrescentar a minha lista de leitura!Amei a resenha!!!

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  16. Oi Evandro,boa noite!
    Sempre apreciei bastante livros de contos e esse livro "A praça do mercado",pela sua resenha,me parece bem interessante!
    Eu ainda não conhecia o autor.
    Beijos!

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    1. O autor tem uma escrita maravilhosa. Se tiver oportunidade, não deixe de ler.

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  17. Olá,amigo!!
    Nossa,amei a sua resenha sobre o livro,muito bem feita.Você explicou com propriedade o objetivo central do livro. Os contos parecem ser bastante interessantes e é uma forma de ver o humano que tem em nós.Parabéns pela excelente resenha.Bjsss!!

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  18. Oi Evandro, tudo bem?
    É tão bom quando os autores conseguem nos transportar para a história! Às vezes é tão real, que nos colocamos no lugar dos personagens facilmente, gostando deles ou não. Nesses contos, o autor abordou temas variados que com certeza irão prender nossa atenção. Sua resenha ficou ótima, obrigada pela dica.
    beijinhos.
    cila.

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    1. Oi, Cila. É realmente verdade tudo o que você disse. Alguns autores conseguem a mágica de nos transportar pra dentro das histórias e isso acontece com esse livro.

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