Os amores inacabados são como doença.
O Diário de Tita, é a continuação do romance Como água para chocolate (1989), da escritora mexicana Laura Esquivel. Quando os sentimentos de uma mulher entram em conflito com as tradições sociais, durante a Revolução Mexicana no início do século XX, transformam sabores e aromas em sensualidade e paixão, como forma de libertar-se da opressão social que acorrentava seu próprio caminho.
No fim do primeiro livro, após o Racho da família De la Garza ser destruído pelas chamas, o diário de Tita, escrito com sua própria caligrafia, reúne não só os relatos pessoais da personagem, mas fotografias e diversas receitas que se ligam aos momentos de sua vida durante 20 anos.
Se em Como água para chocolate acompanhamos a protagonista pelos olhos de sua sobrinha-neta, agora somos convidados a mergulhar no âmago da personagem principal, através de suas próprias palavras, anseios, paixões, dores, medos, sentimentos e segredos.
A única coisa que sei foi que ela me ensinou a ouvir o silêncio.
Ao se apaixonar pelo jovem Pedro, Tita descobre que por ser a caçula de três irmãs, está destinada a ficar solteira para cuidar da própria mãe na velhice, conforme antigos costumes. O destino se mostra ainda mais cruel quando esse rapaz que lhe jurou amar eternamente é levado a casar-se com sua irmã Rosaura. Ele aceita na intenção de sempre estar perto da mulher amada, mas as consequências podem ser cruéis e insuportáveis.
Através das confissões de Tita, acompanhamos várias situações de forma mais intimista, como seu envolvimento com o médico John Brown, a relação com a mãe, com as irmãs e sobrinhos. O livro, por ter o formato de diário, contém algumas lacunas temporais, receitas, pequenos detalhes em colagens e fotografias, o que torna a leitura sensível e direta.
Com 304 páginas em sua edição impressa em Portugal, O Diário de Tita pode ser lido separadamente, embora tenha um sabor diferente para quem já conhece a história. A trilogia se encerra com o livro Meu negro passado, ainda não publicado no Brasil.
Você já conhecia essa continuação? Me conte o que achou do livro.
Querido diário, não penses que sou ingrata. É verdade que quando estou muito feliz te abandono e só regresso para te contar as minhas tristezas, mas o que é que tu queres, é assim a vida. Desculpe-me.
"Gosto de comprar flores e de as por na mesa. Gosto de comprar velas e de as acender na altura certa. Gosto de colocar uma bela toalha de mesa, que eu própria bordei e passei a ferro. Gosto da harmonia, da beleza, da limpeza. Gosto que a minha cozinha, o meu quarto, a minha mesa, e até mesmo a minha casa de banho se convertam em templos, em espaços onde partilho o meu tempo, o que eu fiz com o meu tempo, com os outros. Gosto de cantar enquanto lavo roupa. Gosto de dançar enquanto varro com a vassoura. E gosto de ficar em silêncio enquanto faço tricô, enquanto bordo, enquanto desfaço a lã, porque entre um ponto e o outro, a minha alma, como se de um pedaço de tecido se tratasse, se amarra, se enlaça num espírito (...)"
Sobre a Autora:
Laura Esquivel é uma romancista, roteirista e ex-política mexicana, mais conhecida por seu romance de estreia aclamado internacionalmente, Como Água para Chocolate. Combinando realismo mágico com profundas raízes culturais, a obra tornou-se um best-seller no México e nos Estados Unidos e foi adaptada para um filme de sucesso que recebeu diversos prêmios internacionais. Atualmente foi adaptado para um seriado com duas temporadas pela HBO. Com formação inicial em educação e teatro, Esquivel começou a carreira escrevendo para a televisão infantil e, posteriormente, voltou-se para o cinema e a literatura, frequentemente entrelaçando temas como gastronomia, família e emoção em suas histórias. A ficção de Esquivel é reconhecida por seu estilo lírico e pela exploração de temas como amor, tradição e identidade, recorrendo frequentemente à história e ao folclore mexicanos. Entre seus outros romances estão A Lei do Amor, Veloz como o Desejo e Malinche, obra que reimagina a história da controversa figura histórica ligada a Hernán Cortés. Ela também publicou ensaios sobre gastronomia e cultura em Entre dois fogos e retomou sua personagem mais querida em O Diário de Tita. Escreveu também Meu Negro Passado, encerrado sua trilogia de maior sucesso. Além de sua atuação literária, Esquivel foi deputada no Congresso mexicano pelo partido Morena e tem participado ativamente de políticas culturais e ambientais. Sua obra continua a inspirar debates sobre gênero, poder e os laços duradouros da herança cultural. (Fonte: GoodReads)
*Leitura realizada no Kindle
Imagem gerada por IA










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